| O SENHOR ORLANDO Conto Gabriel de Sousa (poeta2811) |
Gosto de conversar, de dialogar e de trocar ideias. Sou avesso aos que tentam monopolizar as conversas ou, no outro extremo, aos que se mantém calados, às vezes sem se ver mesmo a sombra de uma reacção nos seus rostos. Com o senhor Orlando era diferente. Ancião já a ultrapassar os oitenta, ele tinha sempre uma história interessante para contar acerca de todos os assuntos. Era o que se podia chamar uma enciclopédia viva.
Se falássemos de futebol, de jogadores, de treinadores ou clubes em voga, logo ele nos lembrava que, no seu tempo, havia “este”, “aquele” e que o “clube tal” já estivera entre os maiores e ganhara mesmo campeonatos de Portugal.
Se falássemos de informática, logo nos diria que mais revolucionárias ainda tinham sido outrora a electricidade e o telefone, a máquina de escrever e a televisão. Conhecia nomes e datas das principais invenções, sabendo a importância que tinham tido no contexto de cada época.
Como se podia conhecer tanta coisa, sobretudo ele, que tinha sido apenas um marceneiro, embora dos bons pois trabalhava a madeira com mestria? O saber pode adquirir-se de várias formas. Pelo estudo, pela experiência da vida ou lendo, lendo muito. Se os três factores se conjugarem, melhor ainda.
Se falássemos de futebol, de jogadores, de treinadores ou clubes em voga, logo ele nos lembrava que, no seu tempo, havia “este”, “aquele” e que o “clube tal” já estivera entre os maiores e ganhara mesmo campeonatos de Portugal.
Se falássemos de informática, logo nos diria que mais revolucionárias ainda tinham sido outrora a electricidade e o telefone, a máquina de escrever e a televisão. Conhecia nomes e datas das principais invenções, sabendo a importância que tinham tido no contexto de cada época.
Como se podia conhecer tanta coisa, sobretudo ele, que tinha sido apenas um marceneiro, embora dos bons pois trabalhava a madeira com mestria? O saber pode adquirir-se de várias formas. Pelo estudo, pela experiência da vida ou lendo, lendo muito. Se os três factores se conjugarem, melhor ainda.
Orlando não chegara a tirar a instrução primária em criança, pois começou a trabalhar muito cedo com o pai. Conseguiu estudar mais tarde, frequentando mesmo o Curso Industrial. Ainda estudou uns anos, à noite, depois do trabalho, apesar das dificuldades em comprar material escolar e em pagar as deslocações até à cidade que distava alguns quilómetros. Depois, enquanto as outras crianças, se entretinham com as brincadeiras próprias da idade, ele devorava livros, comprados a expensas suas ou emprestados pela biblioteca da Associação Cultural da vila. Quando podia escolher, preferia aos romances e livros de aventuras, biografias de personalidades célebres, relatos de invenções e de descobertas ou livros de História. Lia também muitos jornais, muitas das vezes atrasados, encontrados por aqui e por ali. Ouvia rádio, quando e onde podia, dando prioridade a palestras e entrevistas.
Tinha a avidez do conhecimento e assim continuou pela vida fora. Foi por isso sempre muito apreciado pelos colegas e pelos amigos.
Tinha a avidez do conhecimento e assim continuou pela vida fora. Foi por isso sempre muito apreciado pelos colegas e pelos amigos.
Casou cedo e a mulher morreu-lhe quando a tuberculose era uma doença quase sempre fatal. Não teve filhos e nunca mais se casou. Trabalhou até poder e só se reformou quando passava já dos setenta anos.
Passou a frequentar o café da terra, sobretudo pela manhã e nos fins de tarde. Em casa, durante o dia, lia e cozinhava. Aprendera a cozinhar durante a vida militar, quando prestou serviço na messe dos sargentos de um quartel no Norte. Ainda hoje se perguntava porque não seguira a profissão de cozinheiro.
Quando entrava pela porta do cafezito, ouviam-se cadeiras a arrastar, dando-lhe lugar à mesa, numa disputa pela sua presença. Todos, novos e velhos, apreciavam a sua habilidade para contar histórias.
Naquele dia, um dos presentes, ainda bastante jovem, falava do acidente de trabalho que tivera e que lhe esmagara uma perna. Logo Orlando contou histórias de vários estropiados das guerras coloniais, que ficavam sem pernas e por vezes cegos, quando não morriam. Quase todos eles, com maior ou menor dificuldade, mas sobretudo com grande força de vontade, tinham sabido ultrapassar as suas deficiências e levar vidas quase normais. Quem o ouvia descrever, com detalhes, os rebentamentos de minas, algures nas picadas de Angola ou nas florestas da Guiné, julgava mesmo que ele lá tinha estado, o que não era o caso, pois o “senhor” Orlando, como lhe chamavam respeitosamente, tinha estado apenas em Goa que, comparada com os outros territórios coloniais mais tarde em tempo de guerra, era um paraíso. E que coisas maravilhosas ele contava de Goa, dos Goeses e do belo rio Mandovi.
Passou a frequentar o café da terra, sobretudo pela manhã e nos fins de tarde. Em casa, durante o dia, lia e cozinhava. Aprendera a cozinhar durante a vida militar, quando prestou serviço na messe dos sargentos de um quartel no Norte. Ainda hoje se perguntava porque não seguira a profissão de cozinheiro.
Quando entrava pela porta do cafezito, ouviam-se cadeiras a arrastar, dando-lhe lugar à mesa, numa disputa pela sua presença. Todos, novos e velhos, apreciavam a sua habilidade para contar histórias.
Naquele dia, um dos presentes, ainda bastante jovem, falava do acidente de trabalho que tivera e que lhe esmagara uma perna. Logo Orlando contou histórias de vários estropiados das guerras coloniais, que ficavam sem pernas e por vezes cegos, quando não morriam. Quase todos eles, com maior ou menor dificuldade, mas sobretudo com grande força de vontade, tinham sabido ultrapassar as suas deficiências e levar vidas quase normais. Quem o ouvia descrever, com detalhes, os rebentamentos de minas, algures nas picadas de Angola ou nas florestas da Guiné, julgava mesmo que ele lá tinha estado, o que não era o caso, pois o “senhor” Orlando, como lhe chamavam respeitosamente, tinha estado apenas em Goa que, comparada com os outros territórios coloniais mais tarde em tempo de guerra, era um paraíso. E que coisas maravilhosas ele contava de Goa, dos Goeses e do belo rio Mandovi.
Naquela tarde, encontrava-me num banco do jardim, junto do coreto, conversando com um velho reformado que se sentara ao pé de mim. Queixava-se da vida, dizendo sem hesitações que no tempo da “outra senhora” tudo era muito melhor. Apercebi-me da aproximação do senhor Orlando e chamei-o:
- «Sente-se aqui connosco. Venha ajudar-nos nesta conversa. Este amigo queixa-se, como toda a gente, da crise que o país atravessa e que tanto prejudica os trabalhadores e os reformados. Diz que antigamente era tudo muito melhor» …
- «Ora deixem-me instalar bem, pois as minhas artroses não perdoam quando há mudanças de tempo. Se bem entendo, está a querer dizer - sejamos claros - que no tempo do “botas” vivíamos melhor. Puro engano. Éramos um país de analfabetos, os trabalhadores não se podiam manifestar, havia miséria, não podíamos falar à vontade nem tínhamos o direito de reunião. Éramos uma terra de emigrantes, com muita gente a passar fome e muitas crianças a não saberem sequer o que era um par de sapatos. O que acontecia era que os jornais só diziam o que a Censura deixava publicar. A Rádio era igual e a Televisão, mais tarde, também. Vivíamos num país e num mundo onde não acontecia nada. Até era proibido noticiar os suicídios. Isto tudo, acompanhado de discursos do “chefe” e sob a vigilância da polícia politica, através dos chamados “bufos”. Agora todas as coisas podem ser escritas e faladas nos jornais, na rádio e na televisão, minutos depois de acontecerem. Pode criticar-se os governantes. Se estivermos bem informados, podemos tentar mudar o rumo das coisas através do voto popular».
- «Convenceu-me. Envergonho-me de quase ter defendido o antigo regime. Também vivi parte desse tempo. Tem razão. Só sabíamos aquilo que eles deixavam que nós soubéssemos e contentávamo-nos com pouco».
E ali ficámos mais uns longos minutos, ouvindo com atenção o que ele nos contava. Separámo-nos com amistosos apertos de mão.
- «Sente-se aqui connosco. Venha ajudar-nos nesta conversa. Este amigo queixa-se, como toda a gente, da crise que o país atravessa e que tanto prejudica os trabalhadores e os reformados. Diz que antigamente era tudo muito melhor» …
- «Ora deixem-me instalar bem, pois as minhas artroses não perdoam quando há mudanças de tempo. Se bem entendo, está a querer dizer - sejamos claros - que no tempo do “botas” vivíamos melhor. Puro engano. Éramos um país de analfabetos, os trabalhadores não se podiam manifestar, havia miséria, não podíamos falar à vontade nem tínhamos o direito de reunião. Éramos uma terra de emigrantes, com muita gente a passar fome e muitas crianças a não saberem sequer o que era um par de sapatos. O que acontecia era que os jornais só diziam o que a Censura deixava publicar. A Rádio era igual e a Televisão, mais tarde, também. Vivíamos num país e num mundo onde não acontecia nada. Até era proibido noticiar os suicídios. Isto tudo, acompanhado de discursos do “chefe” e sob a vigilância da polícia politica, através dos chamados “bufos”. Agora todas as coisas podem ser escritas e faladas nos jornais, na rádio e na televisão, minutos depois de acontecerem. Pode criticar-se os governantes. Se estivermos bem informados, podemos tentar mudar o rumo das coisas através do voto popular».
- «Convenceu-me. Envergonho-me de quase ter defendido o antigo regime. Também vivi parte desse tempo. Tem razão. Só sabíamos aquilo que eles deixavam que nós soubéssemos e contentávamo-nos com pouco».
E ali ficámos mais uns longos minutos, ouvindo com atenção o que ele nos contava. Separámo-nos com amistosos apertos de mão.
A notícia correu célere na vila, naquela calma manhã de Janeiro. O senhor Orlando morrera durante a noite, vítima de um AVC. Ainda fora chamada uma ambulância, mas nada puderam fazer.
O funeral teria lugar na manhã do dia seguinte e o corpo seria velado a partir daquela tarde na casa mortuária. Ele deixara-me em tempos um envelope para entregar à “funerária” no dia em que ele morresse. Assim fiz.
Não fui à igreja nem ao cemitério. Senti uma grande dor como se ele fosse da minha família. Iria noutro dia visitar a sua campa e levar-lhe umas flores. Fui sete dias depois. Aproximei-me e coloquei as flores no canteiro. Li em voz baixa o que estava escrito em letras douradas na pedra tumular que o cobria: «Aqui jaz um homem que levou a vida a aprender, com a consciência de quase nada saber. Agora descansa em Paz».
O funeral teria lugar na manhã do dia seguinte e o corpo seria velado a partir daquela tarde na casa mortuária. Ele deixara-me em tempos um envelope para entregar à “funerária” no dia em que ele morresse. Assim fiz.
Não fui à igreja nem ao cemitério. Senti uma grande dor como se ele fosse da minha família. Iria noutro dia visitar a sua campa e levar-lhe umas flores. Fui sete dias depois. Aproximei-me e coloquei as flores no canteiro. Li em voz baixa o que estava escrito em letras douradas na pedra tumular que o cobria: «Aqui jaz um homem que levou a vida a aprender, com a consciência de quase nada saber. Agora descansa em Paz».

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