sábado, 9 de abril de 2011

A Atriz... Flávio Morgado


A atriz
Flávio Morgado

“Caía no silêncio do palco, a figura
não era tombo, nem tinha penumbra.
E que não tinha sombra, nem coisa nenhuma,
já que tudo encenava, já que tudo fingia.
Mas era tão leve: feito véu, feito bruma
balançava o vestido enquanto caía.
Já não estava de pé a atriz...
Estava calada, mas sofrer nos dizia,
de vestido ou pelada, chorando fazia,
fazia um cair tão real e misterioso,
que até machucar parecia.
E aos tristes, que por ela carecia,
sentia no tablado seu ar majestoso.
Já no chão, a atriz nos dizia,
e por tudo dizer, e contudo mentia,
falava de amor e declamava poesia,
e preferi de Pessoa a dor, que assim proferia:
Até para escrever muito se fingia.
Já chorava os olhos de atriz...
e em intervalos sorria, enquanto a lágrima caia,
e a boca que nos dizia, agora morria.
Então nos olhou...eternamente,
para dizer aos pagantes...francamente,
que fosse ela a atriz, e não sorridente
seria, se ela mesmo quem dizia.
Já não encenava a atriz...
E quando no palco subia,
e por horas dizia (e mentia)
esperava que da platéia, que a aplaudia,
viesse um infante, que ao palco subiria.
Mas há de ser um ator para tudo fingir,
e ter amor, para nunca mentir.
Mas como não iludir e no fim desistir?
Por Deus, era ele um ator!
Já não era feliz a atriz...
Mas fechava as cortinas, e queria o amor.
Mas por despedir-se da mentira teria uma dor...

...e por pensar em ser feliz,


já não era ela a atriz!”

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