segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Os Nascimentos - Pablo Neruda

 
36.jpg picture by UNIDOSOSDOIS
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Pablo Neruda

Nunca nos recordaremos da nossa morte.
Tão pacientes fomos para sermos
que anotámos os números,
os dias, os anos e os meses, os cabelos,
as bocas que beijámos,e aquele minuto
antes de morrer deixá-lo-e mos sem anotação :
damo-lo a outros de lembrança
ou simplesmente à água,à água ,
ao ar, ao tempo.
É de nascer tão-pouco guardámos a memória,
ainda que importante e jovial
tenho sido a nossa vida :e agora
não te lembras sequer do mais
pequeno pormenor,
não guardaste sequer
um ramo da primeira luz.

 Sabe-se apenas que nascemos.
Sabe-se que na sala ou no bosque
ou no palheiro do bairro piscatório
ou nos canaviais rumorejantes
há um estranho e profundo silêncio,
um minuto solene de madeira
e uma mulher que vai parir.

 Sabe-se apenas que nascemos.
 Mas da profunda agitação
de não ser para existir,
para ter mãos,para ver, para ter olhos,
para comer e chorar e despojar-se e amar,
amar, e sofrer, sofrer,daquela transição
ou calafrio do conteúdo eléctrico
que um corpo toma para si
como se fora uma taça viva,
e daquela mulher desabitada,
a mãe que ali fica com o seu sangue
e a sua dilacerada plenitude,
com o seu fim e princípio,
e a desordem que altera o pulso,
o chão, os cobertores, a
té que tudo se recolhe e mais.

 Um nó é dado com o fio da vida,nada,
não ficou nada na tua memória
do mar bravio que ergueu uma onda
e derrubou da árvore uma maçã sombria.

 Não tens mais recordações que a tua vida.

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